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20/08/2010 - 12h21 - Atualizado em 21/05/2012 - 20h06

O estourar da linha tênue

Por André Silva, aluno do 1º ano de Jornalismo

Conflitos responsáveis por delimitar as fronteiras existentes no ser humano

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Reprodução
A atriz Alice Braga

Fronteiras são o principal componente de Cabeça a Prêmio. Adaptado da novela homônima de Marçal Aquino - o autor do também cinematografado romance O Invasor -, o filme se passa numa cidadezinha sul-matogrossense, na região fronteiriça entre Brasil, Bolívia e Paraguai, contando uma história cheia de “ironias da vida”. O núcleo das personagens estrutura-se em torno de uma família abonada, cujo patriarca é Miro, interpretado por Fúlvio Stefanini. Junto com o irmão Abílio, papel de Otávio Müller, mantém uma criação de gado e, paralelamente, negócios ilícitos. Para transportar mercadoria ilegal, solicitam os serviços de pilotos clandestinos do outro lado da fronteira. Entretanto, apesar da próspera situação financeira da família, a sustentação do lar dá sinais latentes de fragilidade.

Em meio ao processo de fragmentação familiar, Miro teme o desenvolvimento de um abismo emocional entre ele e a superprotegida filha Elaine, encarnada por Alice Braga. Então, contra a vontade do irmão, busca maior estabilidade na vida através de mudanças no direcionamento dos negócios da família. Enquanto isso, um dos pilotos desenvolve um romance secreto com a filha do patrão.

Em torno do ambiente familiar orbitam os empregados da fazenda – que dependendo da necessidade dos contratantes, também cumprem o papel de matadores de aluguel. Vividos por Cássio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis, estes homens são apêndices das necessidades alheias, com a consciência manchada pelo sangue que são eventualmente incumbidos de derramar. Parte das cenas mais interessantes do longa vem do retrato da rotina da dupla, expondo desde a seriedade do ofício de ambos ao humor das conversas triviais deles, mas que também dão a dimensão do impacto psicológico e falta de perspectivas na vida.

Outro traço interessante da obra é o modo como o espaço geográfico serve para afirmar as emoções expostas: a beleza pantaneira reproduzida em lindas tomadas panorâmicas é lírica. Em contraste, noutros momentos enquadram-se superfícies tão áridas e desoladoras que o mero primeiro impacto plástico confere à cena um tom angustiante. O clima predominante do filme, aliás, é de angústia e incerteza com o dia de amanhã.

Pontuada pela negatividade e pequenos prazeres efêmeros, toda a estrutura da trama converge para uma tragédia, onde a família se desfaz e as condições individuais se chocam: a estabilidade dos negócios de Miro e Abílio, dos empregados e pilotos postas em xeque somam-se à descoberta pelo fazendeiro do romance proibido entre sua filha e o jovem piloto Daniel, forçando cada personagem às suas próprias fronteiras. Evidencia-se a paradoxalidade do ser humano, que oscila entre moralidade e animalidade, dignidade e vilania, sem saber muito bem delimitar suas fronteiras.

Finalizado em 2008, Cabeça a Prêmio é a primeira incursão do ator Marco Ricca no papel de diretor e, segundo as palavras do mesmo, tem suas personagens feitas sob medida para os atores escalados - o que justifica as belas atuações.



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