História de amor e sobrevivência durante a 2ª Guerra, escrita e desenhada por Art Spielgman

Há um número grande de reproduções artísticas sobre a Segunda Grande Guerra. Tornar-se uma obra relevante em meio a esse cenário é algo digno de poucos. E tornar-se tão importante quanto Maus – o relato de um sobrevivente é algo único.
A obra, escrita e desenhada por Art Spielgman, se trata de uma história em quadrinhos, ou, como prefere Will Eisner, o grande nome dessa mídia, uma graphic novel. A coragem de Spielgman de contar um dos mais terríveis episódios da história da humanidade transcende à iniciativa de fazê-lo em desenhos. O ilustrador narra a história de seu próprio pai, o judeu polonês Vladek Spielgman.
Os traços de Maus foram originalmente publicados entre 1986 e 1991. Oito anos antes de sua estreia, Spielgman começou a coletar relatos de seu pai. Trechos mostram o relacionamento conturbado entre pai e filho e também expõem a insegurança do autor em contar a história.
Maus ganha as ruas e, com isso, uma chuva de elogios e sucesso da crítica americana, o que rendeu a Art Spielgman o “Prêmio Especial Pulitzer” em 1992. Os organizadores do evento criaram a categoria por não conseguirem afirmar se Maus era uma história verídica ou ficcional, muito embora a leitura atenta e o próprio autor mostrem claramente que se trata de uma obra biográfica. Essa postura reflete um preconceito com as artes gráficas, como se uma história em prosa tivesse mais veracidade do que um relato em desenhos. Foi a primeira vez que o Pulitzer foi dado a uma HQ.
Entre os relatos de Vladek estão sua vida pré-guerra, os romances da juventude, o jeito que conheceu Anja – sua esposa -, sua esperteza e sorte durante os anos de guerra e o período em que passou aprisionado em Auschwitz. O que era para ser o relato de um sobrevivente, na verdade, é um retrato fiel de toda uma geração que passou pela guerra e como essa experiência reflete na vida de seus filhos. Vladek é uma vitima dos nazistas, mas seu filho Art, nascido anos depois do holocausto, também sofre com as fobias e manias de seu pai. Spielgman mostra que tão difícil quanto sobreviver à guerra é manter a vida depois dela.
A caracterização de Vladek não foge muito das caricaturas semitas: esperto, resmungão, preconceituoso e, sobretudo, avarento. A narrativa é contada a partir de seu ponto de vista. Porém, suas memórias são mostradas no livro como um flashback, pois o “presente” de Maus é Art Spielgman tentando montar sua obra em conversas com seu pai.
A mãe da família Spielgman, Anja, descende de família rica e observa cada um dos seus parentes desaparecendo, sendo levados pelos nazistas e separados de seus entes. No pós-guerra, ela não resiste aos traumas psicológicos do holocausto e comete suicídio. Isso retrata que mesmo depois de 1945, em qualquer país, com o mundo em paz, era impossível para aquela geração voltar a viver como antes. O mundo havia mudado e superado as atrocidades nazistas, mas nem todas as vítimas conseguiram acompanhar essas mudanças e esquecer seus traumas.
O que mais impressiona em Maus é como ele consegue ser tão real usando de metáforas para caracterizar seus personagens. Spielgman usa antropomorfismo na hora de mostrar judeus, como ratos, os alemães em forma de gatos, os poloneses são os porcos e os norte-americanos, cães. Essa escolha não infantiliza a obra e, muito pelo contrário, ajuda a deixar explícito o preconceito nazista e como os homens se viam com diferenças naquela época.
Maus é tocante por mostrar uma historia de amor e sobrevivência em meio a guerra. Os relatos de Vladek não expressam nenhum orgulho por ter sobrevivido. O velho carrega uma enorme culpa por ter visto seus parentes, amigos e todos aqueles que compartilhavam de sua religião padecerem e ele ter conseguido se manter vivo. Esse sentimento é transferido para seu filho, que nem havia nascido no período de 1939 a 1945.
Lendo a obra entende-se o pensamento e os conflitos de toda uma geração. Para as artes gráficas, Maus é um divisor de águas e uma das obras mais importantes. Para a humanidade, o retrato fiel da Segunda Guerra Mundial e as suas consequências.
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