O estilo foi abraçado por uma população jovem com ânsia por novidades, disposta a esquecer os anos de chumbo e renovar
Se hoje o cenário rock no Brasil pode ganhar o adjetivo de eferverscente, com várias bandas surgindo inclusive na região norte do país, com apropriações da cultura regional, sem contar os pólos como São Paulo e a região sul, sendo que a sua maioria foi impulsionada pela internet, e um ambiente propício para a sua manutenção, imagine isso há três décadas atrás?
Numa escala menor, mas com maior êxito frente ao grande público, foi isso o que aconteceu durante a década de 80, quando o rock nadou na onda da renovação política e de costumes que surgiu com o declínio do regime militar. E como na época o único jeito de uma banda estourar era seguindo a via tradicional de gravadoras e rádios, vale lembrar que muitas delas resolveram apostar no rock nacional, como a Warner, que teve no seu lineup IRA!, Ultraje à Rigor, Kid Abelha e Titãs, e também com a existência da Fluminense FM, apelidada carinhosamente de “A Maldita”, que dava espaço para músicas enviadas por cassete de bandas iniciantes.
Um dos seus precursores foi a Blitz, mistura de música pop e espetáculo teatral, e que já incorporava um pouco do visual new wave que ditava moda na Inglaterra. Mas o que poucos lembram é que justamente dali sairia um dos personagens deste movimento, o Lobão. Ele fez sucesso também com as suas confusões, como o período em que ficou preso por porte de drogas, lembrada na música Vida Bandida, com “um abraço pra galera da Onze”. Onze era a cela em que Lobão ficou no Ponto Zero com alguns traficantes.
Das bandas que tiveram o maior êxito, a que despontou primeiro foi os Paralamas do Sucesso, trio formado no Rio que teve como primeiro sucesso Vital e Sua Moto, tocado na “Maldita”. Vital era um ex-baterista, que faltou num show e causou a entrada de João Barone.
Também de influência new wave e do reggae, os Titãs foram um dos expoentes de São Paulo. A banda chamava atenção pelo número dos integrantes - oito, no total. Outras bandas da capital paulista eram o Ultraje à Rigor, que bebia na ironia - caso de Inútil, usada durante os comícios das Diretas Já - e na brincadeira, e o IRA!, que evocava o mod britânico, numa resposta ao som mais “alegre” que vinha principalmente da capital carioca.
Já o Sul, que tinha uma vantagem por ter uma cena local, que ao mesmo tempo levou à um certo isolamento, foi o berço de grupos como o TNT, Graforréia Xilarmônica, Cascavelletes, Garotos da Rua e DeFalla. As que conseguiram chegar até o eixo Rio-São Paulo foram Os Replicantes, banda punk capitaneada por Wander Wildner, e Os Engenheiros do Hawaii, que flertava com o rock progressivo e citações à Camus e Sartre.
Em Brasília, com a bênção dos Paralamas, nascidos na cidade, foram catapultados a Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, todas elas iniciadas pelo Aborto Elétrico ainda no início da década, com Renato Russo e os irmãos Lemos. A Legião Urbana foi a banda que mais obteve êxito depois da explosão do rock, até a morte de Renato em 96.
O Barão Vermelho tinha como inspiração bandas de hard rock como os Rolling Stones, mas tinha em seu vocalista, Cazuza, um apaixonado pela MPB, tanto que a união durou menos de quatro anos e três álbuns. O RPM foi o grande sucesso da época, ao emplacar nas rádios oito músicas do seu primeiro disco e depois ao vender mais de 2 milhões de cópias em um ao vivo, com somente duas músicas inéditas, alçando Paulo Ricardo ao nível de sex symbol.
Longe do Circo Voador, do Rock In Rio ou dos programas da Globo, apareciam o Camisa de Vênus, do baiano Marcelo Nova, o núcleo punk de São Paulo, no festival “O Começo do fim do Mundo”, com Ratos de Porão, Inocentes, Ulster e Cólera, e até mesmo os mineiros do Sepultura, que conquistaram o mundo em 87, com Schizophrenia, mas sem reconhecimento no Brasil.
No fim, a estrutura caseira da maioria das bandas, aliada a mudança de foco do mercado fonográfico, com a explosão do sertanejo e o surgimento da axé music, a recessão financeira e a própria mudança das principais bandas, muitas vezes entrando na seara da MPB, frearam essa expansão, mas que ainda assim pavimentou um caminho utilizado nos anos 90 e 2000.
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