"Olhos Azuis" questiona trato dos EUA com imigrantes
Os EUA são conhecidos pelo alto índice de imigrantes ilegais e fortes medidas tomadas em relação a isso. Nos aeroportos, a segurança que usam para conter a imigração é conhecida e criticada pela maneira abusiva e humilhante como tratam os latinos. Esse conflito é a base do roteiro de Olhos Azuis, vencedor de seis prêmios no II Festival de Paulínia, incluindo Melhor Filme.
No filme de José Joffily, o tema é abordado dos mais diversos pontos de vista e através de um abrangente grupo de personagens. A história nos mostra Marshall, interpretado por David Rasché, chefe da imigração de um aeroporto americano, em seu último dia de trabalho, pois está prestes a se aposentar. Um grupo de minorias latinas é parado para interrogatório - nesse agregado estão argentinos, hondurenhos, cubanos e um brasileiro. Marshall questiona os motivos para entrarem nos EUA, passando dos limites, em particular com Nonato, brasileiro residente no país.
Paralelamente, a história nos mostra a personagem mais velha, dois anos após o ocorrido. Os papéis se invertem, ele agora é o estrangeiro nas terras brasileiras e precisa com urgência encontrar uma garotinha, para assim compensar seus erros. Em Recife, conhece a prostituta Bia, que também abandonou sua terra em busca de uma vida melhor e o ajudará a encontrar a menina.
A força do filme está no contraste entre os dois momentos da vida de Marshall apresentados. Enquanto o longa prossegue, o lado autoritário e sádico dele fica mais forte na sala de imigração, mas ao mesmo tempo um lado frágil fica evidente, ao mostrá-lo no nordeste brasileiro, dependendo de Bia para levá-lo até Petrolina e se comunicar com os demais.
A diferença entre os dois momentos fica ainda mais clara pelo fato do filme ser falado em três línguas. As personagens se comunicam na maior parte do tempo na própria língua - Marshall e seus colegas falam inglês, os imigrantes latinos dialogam em espanhol e Nonato, Bia e os demais brasileiros em português. Dessa maneira, enquanto nos momentos passados no aeroporto, o inglês de Marshall reflete a autoridade contra os latinos que não dominam a língua, no Brasil, é o mesmo inglês que o torna mais dependente e, de certa forma, perdido em terras brasileiras.
Olhos Azuis é uma crítica ao tratamento dos americanos com os imigrantes, porém foge do maniqueísmo no qual o filme poderia facilmente cair. Exemplo disso é o casal de poetas argentinos que tentam entrar nos EUA portando drogas (e ironicamente, conseguem), e as personagens Sandra e Bob - colegas de Marshall - ambos representantes das minorias, pois ela é negra e ele descende de mexicanos. Enquanto no início do longa, os três oficiais da imigração têm atitudes semelhantes, conforme Marshall vai passando dos limites, Sandra e Bob perdem a cumplicidade e questionam as ações do chefe. Essa falta de maniqueísmo é fundamental para a obra, uma vez que grande parte dela, gira em torno da redenção de um homem arrependido.
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