O jeitinho brasileiro e a cultura africana se misturam em evento mundial
O futebol explica a África? A menos de um mês do início da Copa do Mundo 2010, esta foi a pergunta colocada para o jornalista esportivo e professor da Faculdade Cásper Líbero, Celso Unzelte, no Café Filosófico do dia 13 de maio, data que inspira reflexões sobre a abolição da escravatura e a dívida histórica que o Brasil tem com os afrodescendentes.
“A primeira questão é que a África é muito anterior ao futebol. Ela já é o que é há muito tempo, e é algo muito parecido com o Brasil”. Para o professor, a semelhança se constata no futebol pela adição do “elemento negro”, que confere a malemolência, improviso e malícia no jeito de jogar, algo completamente diferente do pragmatismo europeu. Unzelte enfatizou a maneira com que a formação e a cultura de um povo influenciam a atuação dentro de campo, e como criam uma identidade não apenas para os jogadores, mas para uma nação de torcedores: “É por isso que o povo brasileiro não aceita retranca, futebol de resultado, obstinado”. Portanto, desenvolver o futebol arte é, para o Brasil, um compromisso histórico e cultural com o esporte e um exercício dessa cidadania esportiva.
Para não perder tal identidade, é imprescindível que o brasileiro reconheça o elemento negro em sua formação, o que raramente acontece. Destacou-se o recente caso do jogador Neymar, que declarou não ser “negão” e por isso não sofrer com o racismo. Tal problema não está localizado somente entre os jogadores de futebol, mas em toda a sociedade brasileira, por isso entender e ter orgulho de suas raízes é um passo crucial, não apenas para o futebol, mas para o país que está sendo construído.
A importância da realização da Copa na África do Sul foi destaque no evento. O país ainda sofre devido ao apartheid racial, e a discussão da identidade negra se torna ainda mais latente. O campeonato sempre gera um interesse pela cultura do país sede, e nesse caso específico, existem muitas questões a serem abordadas em relação ao ranço histórico e à realidade social do país. O professor destacou o papel da mídia, que muitas vezes cobre o evento com enfoque no entretenimento e perde a oportunidade de abordar assuntos menos superficiais que suscitam debates necessários para sociedade.
A beleza da cultura africana também foi discutida. Uma festa de novas cores e sons nos aguarda. “Daqui a trinta anos, quando a gente falar dessa Copa, vai vir à mente o som das vuvuzelas. Com todo o respeito, isso não tem na Copa da Alemanha”. Novamente, as similaridades entre Brasil e África aparecem, e com uma vantagem para nosso país. “O Brasil vai jogar em casa. Acho que a última Copa em que havia tanta identificação com o país sede foi na Copa de 70, no México”. Isso se deve não somente ao bom futebol e alegria da festa, mas também à desigualdade social e força de vontade do povo.
“A gente se pergunta se o futebol explica a África, mas que futebol a África explica?”. No final do debate, percebemos a importância do futebol puro, divertido e alegre de brasileiros e africanos, além de todas as implicações culturais e sociais.
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