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23/04/2010 - 11h23 - Atualizado em 22/05/2012 - 21h58

A voz da cidade

Por Giulia Afiune, aluna do 1º ano de Jornalismo

Adoniran Barbosa é lembrado pelo vínculo com São Paulo no ano de seu Centenário

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Reprodução

Chapéu, paletó, bigode e gravata borboleta. Foi essa imagem que imortalizou Adoniran Barbosa como uma das principais figuras do samba paulistano. O músico, que decidiu mudar de nome, pois, para ele, João Rubinato não combinava com sambista, completaria 100 anos em 2010.

Uma das principais marcas da obra de Adoniran é a forma como retratou a cidade de São Paulo em transformação, seus personagens e peculiaridades histórico-sociais, tanto nas músicas quanto nas criações como ator de rádio. Utilizando-se de um humor característico e do “paulistês” - mistura entre a linguagem dos imigrantes europeus, negros e caipiras da cidade - sensibilizou e conquistou o público das camadas populares. Também fez questão de escrever suas letras com expressões próprias do povo, consideradas erradas pela norma culta: “Falar errado é uma arte, senão vira deboche”.

“Seus tipos eram inspirados em pessoas comuns, falas e entonações desenvolvidas nos diferentes territórios da cidade, as atuações acabaram imprimindo elementos que se tornariam fundamentais para o compositor.”, explica a historiadora Maria Izilda Santos de Matos no texto A cidade, a noite e o cronista: São Paulo de Adoniran Barbosa, homômino do livro que escreveu sobre o músico.

Nas décadas de 30 e 40, em São Paulo, o crescimento desigual da cidade e a baixa qualidade de vida do povo, foram ironicamente ilustrados por ele em Conselho de Mulher: “Progréssio, Progréssio/Eu sempre escuitei fala/Que o progréssio vem do trabaio/Então amanhã cedo nóis vai trabaia (...) Agora escuitando os conseio da mulhê/amanhã vou trabalhar/se Deus quiser/ Mas Deus não qué”. Adoniran também retratou a favelização, desapropriações e degradação humana em Abrigo de Vagabundo, Despejo na Favela e na consagrada Saudosa Maloca.

Sua obra é repleta de cenas do cotidiano. A hora do almoço no trabalho e a conversa com os colegas sobre “coisas que nóis não entende nada” em Torresmo à milanesa. Além do lazer representado pelo samba em Samba do Arnesto, um caso de atropelamento na Avenida São João em Iracema e até mesmo a declaração de amor ao tradicional time de futebol Corinthians em Coríntia.

De acordo com Tomás Bastian, coordenador do Núcleo João Rubinato, cuja finalidade é pesquisar e divulgar a vida e obra do compositor, “Adoniran foi o cronista social da cidade de São Paulo do ponto de vista dos pobres, maloqueiros, vagabundos e excluídos, falando das mazelas do povo e das tragédias cotidianas de sua vida”. A abordagem contribuiu para a formação de uma cultura popular paulistana. Evidência disso é que uma de suas principais composições, Trem das Onze, executada pelo grupo Demônios da Garoa, foi eleita, em um concurso realizado pela Rede Globo, a música que mais representa a cidade.

Parte da paisagem sonora de determinado local e, assim, representando de maneira única o compositor e o público, as canções de Adoniran também podem ser utilizadas como documento histórico, pois, designam o cotidiano, mentalidade, valores e sentimentos próprios da sociedade na época e dentro de determinado contexto. Sua análise, portanto, permite uma forma singular de entendê-la.



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