Atuantes e engajados, os artistas envolvidos na cena permanecem em evidência até hoje
Para qualquer pessoa minimamente informada sobre música brasileira, falar sobre o manguebeat remete a tambores de maracatu misturados à psicodelia das guitarras de Chico Science e Nação Zumbi. A mistura surgiu de uma musicalidade acima da média, que ninguém imaginaria antes de ouvir. Fruto da habilidade desses pernambucanos da periferia, atuantes no circuito alternativo de Recife e Olinda desde o início dos anos 1980.
A batida inovadora continha elementos de hip hop, black music, punk rock e tambores africanos, misturados graças ao uso intensivo e experimental da tecnologia que se popularizava na época. Porém, não menos importantes que o Beat, ou seja, a música em si, são as diversas formas de expressão e os fatores sociais que a cercam. A Cena Mangue abrange desde o trabalho expressivo de bandas como a Mundo Livre S/A, Nação Zumbi, o cantor Otto, até filmes como Amarelo-Manga, de Cláudio Assis e as produções do designer recifense H.D. Mabuse. A ideia era e continua sendo mandar para o mundo inteiro um recado de Recife, do Mangue, da periferia. Por isso mesmo o símbolo é uma antena parabólica enfiada na lama.
“O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, ‘deslobotomizar’ e recarregar as baterias da cidade? Simplesmente basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias de Recife.”. Por meio dessas palavras, no primeiro Manifesto Caranguejos com Cérebro, Fred Zeroquatro, frontman da Mundo Livre S/A, sintetizava o desejo e a emergência de recuperar a dignidade de Recife, cidade que no final do século XX chegou a ser considerada um dos piores lugares do mundo para se viver.
O resultado não foi tão mal: o manguebeat mudou definitivamente a história da música brasileira e devolveu vida à produção cultural pernambucana.
A voz do Mangue no século XXI
Apesar de estarem fora das paradas de sucesso, os artistas do mangue continuam na ativa. Recentemente a cidade de São Paulo foi “invadida” por uma série de shows: Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Maquinado, Otto, Mestre Ambrósio, DJ Dolores e 3namassa (projetos paralelos dos integrantes da Nação Zumbi), além da ocupação Chico Science, exposição que esteve no Itaú Cultural até o início de abril.
Ficou aberto o canal de transmissão que “levou ares desse cosmopolitismo de pobre para o mundo”*, como observou Hilton Lacerda, diretor dos primeiros videoclipes da cena Mangue e roteirista de filmes como Amarelo-Manga e Baile Perfumado. Com diferentes linguagens, a periferia começou a ganhar voz e visibilidade por todo o mundo, porém ele destaca que “o mangue teve algo muito interessante: o constante interesse no universo tecnológico como forma de mudança, instrumento de transformação. Batidas envelhecem, os bits rejuvenescem todos os dias.”*
O Mangue está em toda a parte
Assim como o sertão de Guimarães Rosa, o drama do mangue está em toda a parte. Mais precisamente na periferia de grandes cidades. A falta de perspectiva da população dessas regiões até a ocupação desorganizada de terrenos, o que acaba por prejudicar o meio ambiente e a segurança dessa população, são os fatores responsáveis pela motivação de artistas nesses lugares. Da mesma maneira que o mangue se transformou em cena, a favela cresceu e criou uma cultura presente no Brasil. O sucesso do funk carioca e do rap com artistas como Mv Bill, Kamau e Emicida em todas as classes sociais são prova disso. A periferia se manifesta e procura soluções para os próprios problemas, ao invés de esperar que elas venham de uma esfera maior. Essa atitude tem se mostrado uma tendência da cultura brasileira, e tem na ousada ideia da Cena Mangue raízes e inspirações para buscar formas de inovar e modificar a realidade social do país.
* O depoimento foi retirado da fanzine produzida e distribuída gratuitamente pela produção da Ocupação Chico Science no Itaú cultural.
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