Peça com Fabiana Karla usa humor e drama para atacar preconceitos enraizados no ser humano
Não vá assistir Gorda com a esperança de dar boas gargalhadas. A peça não é - apenas - de humor. Antes de tudo, ela é uma verdadeira crítica social aos preconceitos existentes contra as minorias. Como apontou a crítica do jornal argentino "Clarín" - a peça é uma montagem internacional adaptada para os palcos brasileiros - Gorda poderia ser sobre um negro, um aleijado, um homossexual ou um judeu". O público, entretanto, não é sensível o suficiente para entender isso, a ponto de rir em momentos que, na verdade, exigem reflexão.
O mote do espetáculo é a relação de Helena (Fabiana Karla) e de Tony (Michel Bercovitch). Os dois se conhecem por acaso, em um almoço rápido. Ele se encanta pelo jeito cativante de Helena e, sobretudo, por sua autoestima. Trocam telefones e logo começam a sair juntos.
O problema é que os dois precisam enfrentar o preconceito que cerca a relação. Helena é uma mulher inteligente e culta. Trabalha como bibliotecária e é profunda conhecedora de filmes de guerra. Tony, entretanto, é um sujeito fraco, cujas ações são pautadas pelo olhar da sociedade, e sempre carregado de preconceitos.
Caco (Mouhamed Harfouch) e Joana (Flávia Rubim) são os outros personagens que completam a peça. E é neles que o preconceito se concentra. Piadas maldosas, risos de escárnio e sacanagens aprontadas com Tony, por conta de seu relacionamento com Helena, são exemplos de como os dois não aprovam a relação entre os protagonistas.
Joana, que já teve um caso com Tony, sente-se trocada pela “gorda” e não economiza xingamentos para avacalhar a rival. Caco é um sujeito cínico e cruel, capaz de destratar até mesmo a própria mãe e insensível aos sentimentos alheios, mas é justamente em sua atuação que o público se acaba de rir. O texto do dramaturgo norte-americano Neil Labute é um tapa com luva de pelica naqueles que ainda guardam dentro de si a aversão ao diferente.
Fabiana Karla está surpreendente. Deixou de lado a veia cômica – embora proporcione algumas risadas – e dá toques dramáticos à sua atuação. “Estou numa fase mais dramática”, revela ela. No final, não há como não se emocionar com sua expressividade no palco. Segundo atriz, em todas as apresentações, ela se comove verdadeiramente. E consegue passar isso para o espectador de forma convincente e real.
A peça Gorda está em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, às sextas, sábados e domingos. Ingressos a R$ 60,00.
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