Além da etnofilosofia dominante no passado e de conceitos fechados

“Existe uma Filosofia Africana?” foi a pergunta tema de mais uma edição do Café Filosófico, realizado nesta quinta-feira, dia 8. O evento trouxe o filósofo Bas’ilele Malomalo, natural da República Democrática do Congo, e a cantora Myrella Nascimento, acompanhada pelo percussionista Kadu Fernandes.
“Sou um confuso intelectual”. Começou assim o discurso de Malomalo, que, além de filósofo, é sociólogo, mestre em Ciências da Religião (UMESP) e pesquisador do Centro de Estudos de Línguas e Culturas Africanas e das Diásporas Negras (CLADIN – UNESP).
Sobre a questão tema do Café, o filósofo congolês afirmou que “essa pergunta não tem mais sentido”, pois “é um debate que já foi fechado nos anos 80”. De acordo com ele, a filosofia africana é o conjunto da literatura produzida por africanos e avaliada por eles mesmos. Antes, preponderava a etnofilosofia, feita por europeus durante o período neocolonial.
Malomalo declarou que usara a filosofia e o conceito de “teia” para entender a crise política vivida por seu país. Na época em que começou os estudos filosóficos, na década de 90, a República Democrática do Congo estava sob regime ditatorial de Mobutu Joseph Désiré. Filósofos e antropólogos o auxiliavam para entender a identidade do povo e, assim, dominá-lo.
Segundo o palestrante, “teia” é o relacionamento entre o divino, o humano e o cosmos. Para haver equilíbrio no mundo, essa cadeia deve ser respeitada. “Temos que retomar valores ancestrais, como a Ecologia. Se não filosofarmos sobre isso, vamos afundar a sociedade”, ressalta.
Sobre o regionalismo que há no continente, expôs que a roupagem de cada filosofia nasce das estruturas coloniais e as linhas dominantes eram dos países de língua francesa e inglesa. Citou a própria experiência: “Quando cheguei a Moçambique, em 1996, não havia faculdade específica. Os filósofos de lá se formaram na Europa ou em outro país africano com tradição filosófica”.
Café musical
O Café Filosófico começou com a apresentação musical de Myrella Nascimento, ex-aluna da Cásper Líbero e primeira presidente da Cásper Jr., agência organizadora do evento. No set list, algumas canções de seu primeiro álbum.
Antes da explanação de Malomalo, Myrella cantou Sem você, e em seguida empolgou o público presente com uma música “filosofal”, segundo a musicista. Em Rosa Prata, há o verso “Conhece-te a ti mesmo”, aforismo de Sócrates. A apresentação de MPB também teve influências de samba, com Mulher Brasileira e música flamenca em Se fue.
O próximo Café Filosófico será dia 13 de maio. O tema, como adiantou o professor Francisco Nunes, também será uma pergunta: “O futebol explica a África?”.
Comentários Postados
Parabéns , adorei a entrevista
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