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31/03/2010 - 10h19 - Atualizado em 22/05/2012 - 14h42

Escrevendo com imagens

Por Alexandre Facciolla, aluno do 4º ano de Jornalismo

Exposição de trabalhos da fotógrafa Maureen Bisilliat traça paralelo com a literatura

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Reprodução

Nascida numa pequena cidade da Inglaterra, em 1931, a fotógrafa Maureen Bisilliat desbrava desde muito cedo os caminhos das artes visuais. Chegou a estudar pintura em Paris e em Nova York, mas acabou por fixar residência em São Paulo, onde atuou como fotógrafa em diversas publicações, mas teve o seu trabalho mais expressivo na revista Realidade, uma das principais revistas da década de 1960 e 1970.

Dentro da exposição, o espectador revisita, junto à autora as suas principais “leituras visuais” da realidade brasileira e internacional durante os últimos 40 anos. O termo “leitura visual” não é leviano: uma marca característica do trabalho de Bisilliat é sua reverência a produção literária que abarca as cenas e situações que ela fotografava. A prova disso é que quase todas as fotos da exposição apresentam trechos de parceria com figuras emblemáticas de nossa literatura – como, por exemplo, Guimarães Rosa, em suas referências sobre o sertão mineiro, ou Jorge Amado, quanto aos registros da baianidade.

A exposição apresenta, de início, fotos de um colorido intenso das expressões culturais do reisado – dança popular do interior do nordeste, na qual se festeja o dia de Reis – acompanhadas pela produção regional de Ariano Suassuna, segundo a fotógrafa.

Logo depois, o preto, o branco e o cinza – junto com o granulado característico dos filmes – chama a vasculhar os detalhes da conversa roseana que Maureen trava nos painéis que estampam o segundo ambiente da instalação, junto com o contraste presente na ligação entre os olhares de Maureen e do escritor Jorge Amado quando ela retrata os matadouros da Bahia. Em seguida, o tom de terra das vestes de couro dos vaqueiros, em poses quase aristocráticas traça um paralelo com a obra de Euclides da Cunha.

No outro cômodo, está talvez a parte de registros brasileiros mais famosos da autora. Durante três anos, Maureen visitou as tribos do Xingu, na floresta amazônica, junto aos irmãos Villas-Bôas. Durante as expedições, Maureen fez não só fotografias, mas exercitou sua produção audiovisual que é revelada em um documentário de 60 minutos sobre um ritual em que as mulheres das tribos lutam entre si. Essa é a única parte da exposição onde a fotógrafa se utiliza do PB e do colorido sobre um mesmo tema.
 
Depois disso, se encontram os trabalhos da fotógrafa pelo mundo. Antecipada por dois espelhos em paralelo, a parte internacional trata primeiro da China, depois dos Andes bolivianos e, em seguida, do Japão, numa sequência quase ingênua de um dia-a-dia japonês – enraizada nas leituras de Kawabata, segundo Maureen – quase impensáveis na atualidade nipônica. A última parte dos registros fotográficos remonta a uma das produções mais recentes, da década de 1990, da Costa do Marfim, na África.
 
O jogo e o contraste permeiam a exposição – quando, por exemplo, à mudança brusca de temáticas se antecipam espelhos em paralelo, dando uma impressão de infinito labiríntico. Como ela aponta, suas imagens e a maneira como estão colocadas, procura acompanhar, como a palavra escrita a “orquestração entre ritmos, silêncios, acordes, vazios”. E resume a exposição: “Seria quase como escrever com a imagem e ver com a palavra”.



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