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19/03/2010 - 13h14 - Atualizado em 21/05/2012 - 18h29

Os heróis verossímeis

Por Pedro Zambarda, aluno do 4º ano de Jornalismo


Reprodução

Vigilantes andam fantasiados e são ridículos em comparação a sociedade que os rodeia. O único humano com poderes especiais consegue manipular a matéria de todas as formas e é indestrutível. Zack Snyder é o autor dessa adaptação cinematográfica, depois do sucesso com 300, consagrado entre os filmes de ação. É compatível uma história de quadrinhos de super-heróis crítica com um longa-metragem de pancadaria? Em 2009, Watchmen marcou o cinema, três anos depois do lançamento de V de Vingança.

Entre 1986 e 1987, o roteirista Alan Moore e o desenhista Dave Gibbons utilizaram heróis da Charlton Comics em uma história extremamente inovadora para a época. Ao invés de uma liga tradicional, os vigilantes de Watchmen são homens decadentes após uma era de ouro do combate ao crime entre as décadas de 40 e 50, quando existia o grupo chamado Minutemen. O mundo se altera quando surge, de fato, um super homem plausível na pessoa de Jonathan Osterman, físico desintegrado em um experimento atômico. A entidade azul chamada Dr. Manhattan, criada pelo corpo de Osterman refeito, causa a perseguição aos vigilantes sem poderes especiais e o fim da Guerra do Vietnã através de ações repressoras do governo norte-americano.

O único que permanece super-herói nesse período é Edward Blake, conhecido como o Comediante. Ele tem um perfil militar para o heroísmo, abusando de armas de fogo e força bruta. Torna-se um mercenário a serviço do presidente, demonstrado nitidamente nas primeiras cenas de Snyder. Nesse contexto que a história de Watchmen começa, com o assassinato repentino do Comediante. Vigilantes aposentados e um perseguido, Rorscharch, começam a investigar as razões do crime.

A adaptação cinematográfica representa o roteiro de Alan Moore, inovador para a época: o mundo de Watchmen é uma realidade alternativa onde super-heróis são humanos - exceto pelo Dr. Manhattan -, e influem socialmente. O crime cometido contra Blake ocorre durante um dos inúmeros riscos iminentes de conflito direto entre URSS e EUA na Guerra Fria. Rorscharch, agindo como justiceiro nas ruas, faz uma investigação que acaba com a volta de Dan Dreiberg, o Coruja, e a namorada de Manhattan, Laurel Juspeczyk, a Espectral. Dan vai buscar a ajuda também do homem mais inteligente do mundo, Adrian Veidt, dono de um conglomerado de empresas e herói aposentado sob o nome de Ozymandias.

As personagens dos quadrinhos sofreram um abalo na adaptação de Zack Snyder para os cinemas somente nas cenas de pancadaria, quando pedaços de concreto são arrancados das paredes e há abuso na utilização do slow motion. Mas isso não atrapalha a experiência visual, especialmente se ainda não leu a obra original. O roteiro foi atualizado sem suprimir a maioria dos fatos originais e a versão de Snyder para cada herói, incluindo o brilhante Manhattan, está fiel. Watchmen é a história de um heroísmo verossímil e problemático, quase como o de anti-heróis, mas nos reconecta com a realidade, mostrando a rejeição social que existiria diante de tais personalidades. Quando Moore estava em processo de criação, era governo de Ronald Reagan, extremamente neoliberal e conservador. Esse mundo obscuro é um tapa na cara das políticas repressoras do tradicionalismo, especialmente na cena em que Coruja e o Comediante debatem sobre o "sonho americano". É um flashback que sempre merece ser visto, assim como a obra toda.



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