“Nenhum de nós pode remediar as coisas que a Vida nos faz! Estão feitas antes mesmo que a gente se aperceba… e uma vez feitas nos levam a praticar outras tantas coisas até que, no fim, tudo se interpõe entre nós e tudo que quiséramos ter sido, e o nosso verdadeiro eu está para sempre perdido.”
A fala é de Mary Tyrone, personagem de Longa Jornada Noite Adentro. O trecho resume o espírito do texto autobiográfico escrito por Eugene O’Neill. O destino da família fictícia Tyrone, assim como o da família O’Neill, seria inescapavelmente trágico. Eugene Gladstone O’Neill, filho de James O’Neill e Ellen (ou Ella) Quinlan, nasceu no dia 16 de outubro de 1888, em um quarto de hotel, Barret House, localizado em Nova Iorque, nas proximidades da Broadway. No dia 27 de novembro 1953 faleceu em um hotel de Boston, o Shelton. Antes de morrer, teria balbuciado as seguintes palavras: “Nascido num quarto de hotel e, maldito seja, morto num quarto de hotel!”
O’Neill determinou que Longa Jornada Noite Adentro – sua última peça – fosse publicada apenas 25 anos depois de sua morte. Justificativa? Uma das personagens ainda vivia. O tempo se encarregaria de revelar que esta personagem era ele próprio. Carlotta Monterey, viúvia de O’Neill, autorizou em 1956, três anos após a morte do marido, a publicação e a encenação do texto. Veio então para o grande público o drama da família Tyrone que, indubitavelmente, coincidia em muitos aspectos com o da família O’Neill.
A peça narra um dia da família Tyrone. Um dia em que seus fantasmas vêm à tona. Os Tyrone passam férias em uma casa antiga de veraneio. O filho mais novo, Edmund, está doente; no decorrer da peça descobrimos que se trata de tuberculose, exatamente como aconteceu com O’Neill em sua juventude. A matriarca da família, Mary Tyrone, é mostrada como uma mulher doce e frágil. O irmão mais velho, Jamie, é representado como sendo um jovem fanfarrão e mulherengo. James Tyrone, o patriarca, é um velho sovina e um ator que prostituiu o seu talento com encenações popularescas, por causa do dinheiro.
Embora muitos dos dramas da família Tyrone coincidam com os dramas da família O’Neill, nem tudo é fato. Muita coisa é distorcida pelos sentimentos de Eugene e outras são simplesmente ocultadas. James O’Neill não fôra de maneira alguma o avarento mostrado na peça, ao menos não em relação à esposa. Em 1833, o Times publicou que o senhor James O’Neill havia gastado 40 mil dólares em uma casa que construiu para Ellen em Boston.
Não podemos nos deixar enganar, portanto, pela suposta fidelidade autobiográfica do texto. Longa Jornada… é uma peça expressionista, pois é recheada de subjetivismo, e influenciada pela memória de seu autor. Provavelmente, descreve a verdade psicológica de Eugene O’Neill, sujeita a todo tipo de interferência emocional. Quando adolescente, ele de fato viu a mãe com uma seringa com morfina espetada no braço, fato que o marcaria para sempre. Esta experiência fica muito clara no desenrolar da peça. A família Tyrone finge ser uma família normal e, em alguns momentos, feliz, como na primeira cena, em que todos estão conversando. Mas esta felicidade é marcada pela ilusão: todos sabem que a sra. Tyrone não está recuperada; ainda assim, preferem simular a crença de que tudo vai voltar a ser como era antes do surgimento do espectro da morfina.
Eugene O`Neill nos transporta para quatro jornadas. Cada indivíduo parece viver em seu próprio mundo e o único que está consciente disto é o próprio O’Neill, o que aumenta a dramaticidade da sua trajetória. Enquanto a mãe, com o auxílio da droga, revive cenas da adolescência, o pai finge estar vivendo um verão feliz com a família e o irmão busca refúgio na bebida, ele vive a agonia da tuberculose e observa a família, perturbada, se afundar cada vez mais.
Longa Jornada… é uma obra carregada de drama. O destino da família é trágico, por mais que suas personagens tentem esconder seus verdadeiros problemas. Para Mary – nome que faz referência à virgem católica – a jornada é para as trevas do mundo das drogas e dos sonhos. Cada personagem carrega sua culpa, da qual não pode fugir. Ninguém é inocente. Eugene O’Neill, como ele próprio afirma na dedicatória do livro, afronta seus mortos, na tentativa de entendê-los. Só então pode perdoá-los.
É interessante o nome que adota para si próprio na peça: o nome do irmão que morrera ainda pequeno na casa dos avôs quando os pais estavam em turnê. Sua mãe jamais se perdoaria por não estar presente na ocasião. Na obra, Eugene é Edmund, enquanto as personagens se referem ao irmão morto como Eugene. É como se o Eugene real, o que sobreviveu e alcançou o sucesso, nunca pudesse ter sido ele mesmo, como se estivesse morto – como se “o verdadeiro eu” estivesse eternamente perdido.
Ao ler Longa Jornada Noite Adentro percebemos a presença do inevitável Há no texto a seguinte passagem: “O passado é o presente, não?! É igualmente o futuro. Todos nós tentamos evadir-nos dele, mas a Vida não o permite.”
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