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18/01/2010 - 13h31 - Atualizado em 21/05/2012 - 19h25

A câmera da loucura

Por Paula Vilhena Gonçalves, aluna do 4º ano de Rádio e Televisão

A percepção da fotografia por Barthes

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Reprodução
Roland Barthes

No livro A Câmara Clara, Roland Barthes descreve sua busca por uma definição da fotografia diferenciando-a de outras imagens. Ele declara seus sentimentos e impressões da realidade, do tempo e da vida quando observa uma fotografia.

O autor nomeia a atração por uma fotografia em particular de punctum. Esta palavra, em latim, significa “picada, pequeno buraco, pequena mancha, pequeno corte”. Seria o detalhe chamativo, que desperta um sentimento parcial, como uma força de expansão, preenchendo toda a fotografia, conferindo destaque e surpresa ao observador. Cada fotografia tem um punctum diferente e cada pessoa o visualiza em um detalhe.
 
A fotografia gera a noção de realidade no observador, por ser, necessariamente, real. O que se vê nela esteve fisicamente presente naquele momento e naquele local, mesmo quando produzida de maneira artificial. Barthes descreve a imagem da foto como um corpo real irradiado, enquanto a pintura é a imitação do real.
Essa representação da fotografia como realidade é chamada de loucura pelo autor. Deste modo, ela se torna algo “surreal”, confundido nos tempos e nas percepções.

A pose é o efeito de imobilizar o momento do clique. A presença do autor da fotografia, esta vinculada a seu sentimento, é muito forte para enfatizar a sensação de realidade e de tempo. A fotografia é real e, ao mesmo tempo, presente e passado. Ao se manter em tempos diferentes, ela eterniza o que está nela. Objetos e seres ganham vida, mesmo aqueles que já estão mortos. 

O livro é íntimo, como um diário.  Barthes expõe suas percepções, raciocínios e dilemas durante a pesquisa. Por meio da fotografia de sua mãe em um jardim de inverno, discute o fato de reconhecer as características dela em uma imagem, mesmo sem enxergá-la direito e mesmo diferente do modo como a conheceu.

Ele cria um paradoxo entre a ideia de co-presença de tempos distintos e de inexistência de campo cego. A sua visão sobre fotografia é plena, não questiona o futuro, nem o que está fora do quadro. Não há o campo cego.

O campo cego na fotografia seria o espaço por onde percorre a imaginação do observador, além do enquadramento do operator, além da visão. Ver algo não quer dizer que estamos obsoletos de qualquer outra forma de percepção, podemos questionar por meio de outros sentidos, como audição e olfato. Os cheiros e os sons do momento em que a fotografia foi tirada, por exemplo,

O autor compara o texto com a fotografia afirmando que uma imagem em um livro por estragar a leitura e, na fotografia, a imagem é tudo e se basta. No livro, por tirar do leitor o poder de criar imagens na sua cabeça, de ir atrás do campo cego. Assim como o texto tem espaço para ir além do que se lê, a fotografia também abre espaço para o observador buscar além do que se vê.

Roland Barthes pretende descobrir a essência da fotografia sem reduzir a presença do homem na percepção da fotografia.



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