Casamento Silencioso está em cartaz. É o filme de estreia do romeno Honoratiu Malaele como diretor, que consegue levar às telas a distância entre povo e poder na União Soviética durante e pouco após o regime de Stalin, ao colocar em cena uma união matrimonial tragicômica.
A história se inicia numa pequena aldeia que recebe, nos dias de hoje, a visita do prefeito local, acompanhado de uma equipe de televisão em busca de fenômenos paranormais. Lá eles encontram um cenário formado por ruínas, figuras como a de uma velha prostituta, e de uma população formada apenas por mulheres idosas. A partir de então, o prefeito começa a explicar as origens desta situação decadente, relembrando um casamento que ocorrera ali em 1953.
Aquele pequeno vilarejo romeno, à época estava oficialmente sob domínio soviético, e estaria para acontecer um casamento entre Nara (Meda Andreea Victor) e Iancu (Alexandru Potocean). Convidados postos, comida pronta - a festa finalmente havia chegado. Porém, subitamente, membros do exército soviético a interrompem, logo no início, para anunciar que Josef Stalin, o líder da URSS, havia falecido naquele 05 de março, e assim todas as manifestações coletivas, incluindo casamentos, estariam proibidas por um período de sete dias.
Contudo, o pai da noiva mantém o casamento. A celebração seria realizada silenciosamente, à noite, para que os soviéticos não descobrissem aquele desacato. A comunicação durante a cerimônia deveria ser feita através de gestos ou pequenos cochichos.
A necessidade de silêncio, rara de ser vista no cinema atual, que valoriza a evolução e a importância dos equipamentos de som, faz com que a história se torne, nessa sequência, uma comédia dramática, gênero que consegue transmitir com grande êxito para o espectador o tema central do filme: a impossibilidade de manifestação e de comunicação causada pela restrição à liberdade.
O principal ponto do filme, além da cena do casamento, é representar da falta de apoio da população romena ao regime socialista. A começar, pelo dirigente local do partido retratado como um fracassado que tenta de todas as formas conseguir membros novos, sem sucesso.
Outra forma de mostrar o distanciamento entre população e poder é apresentar a forte crença religiosa da população em contraposição ao ateísmo adotado pelos comunistas. A cena que melhor exemplifica é a de um oficial soviético anunciando a morte de Stalin, enquanto um morador romeno se lamenta ao dizer “que Deus o abençoe”.
É esta tentativa de sobreposição e imposição cultural, que a URSS tentou sustentar até o seu fim definitivo, em 1991, que permeia toda a produção cinematográfica, e que representa as profundas marcas deixadas pela ocupação soviética.
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