Monólogo encenado pela atriz Fernanda Montenegro relata vida e trajetória de uma das maiores escritoras do século XX, Simone de Beauvoir.
“Viver sem tempos Mortos”. Essa era a intenção da escritora e filósofa francesa, Simone de Beauvoir, e é o lema escolhido para dar nome à peça, encenada pela atriz Fernanda Montenegro, no Teatro SESC Anchieta, baseada nas correspondências entre a escritora e Jean-Paul Sartre, seu parceiro, amigo e amante.
O monólogo prende a atenção do público. Em certos momentos, esquecemos que estamos diante de uma atriz e imaginamos estar a própria Simone de Beauvoir.
Reconhecida como uma personagem importante do feminismo, defendia que a mulher não nasce mulher, deve conquistar esse papel, assim como o homem, que adquire o caráter de virilidade ao longo do tempo. Essa defesa, bastante polêmica para a época, aparece em seu livro em dois volumes, “O Segundo Sexo”, publicado em 1949.
Na peça, é narrada a trajetória da escritora, nascida em Paris, em 1908. Aos 14 anos, seu pai, Georges de Beauvoir, a estimulou a estudar literatura, dizendo-lhe que “não havia nada mais belo no mundo do que ser escritor”. Nessa época, conhece Zaza (Élizabeth Lacoin), garota voluntariosa e cínica, que, alvo de admiração de Beauvoir, é o principal motivo para as mudanças ocorridas na sua escrita e, principalmente, em sua forma de enxergar a vida.
No entanto, o ápice do monólogo situa-se no encontro entre a escritora francesa e Jean-Paul Sartre. Os escritores pertencem à corrente filosófica existencialista, que coloca sobre o homem a responsabilidade por suas ações e defende a inexistência de uma essência universal presente em cada indivíduo. Circunstância que leva Simone a não acreditar em Deus ou em destino, mas no caminho que cada pessoa traça em vida.
As correspondências, que deram origem à peça, são reflexo da importância da relação entre Simone e Sartre. Os romances com outras pessoas não significaram um desgaste, mas algo que deixou ainda mais claro a existência do amor entre o casal. De acordo com Simone, a morte foi a única capaz de separá-los e, mesmo que ela também morresse, seria impossível que eles se reunissem.
Sobre a atuação de Fernanda na peça, o diretor Felipe Hirsch define que a atriz esteve centrada na interpretação emocional de Simone e não na física, o que contribui na transparência e evidencia as reflexões feitas pela autora.
A aproximação entre a plateia e público em um só corpo, sem interferências é nítida. Após suas últimas palavras, Fernanda Montenegro é ovacionada pela plateia que parece, nesse momento, acordar de um estado letárgico e notar que está em frente de uma atriz e não, no século XX, discutindo ideias com Simone de Beauvoir.
A peça com direção de Felipe Hirsch faz parte do Projeto “Caminhos da Liberdade”, que já esteve na Baixada Fluminense e está no término da temporada em São Paulo.
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