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14/01/2010 - 12h45 - Atualizado em 19/05/2012 - 07h18

Chapolin Colorado: a América Latina tem seu herói

Por Luana Fagundes e Paulo Pacheco, alunos do 1º ano de Jornalismo


Reprodução
Seus defendidos não precisam
de "heróis importados"

“Mais rápido que uma tartaruga, mais forte que um rato, mais inteligente que um asno” . “Chapolin Colorado” surgiu para satirizar os heróis norte-americanos com seus “superpoderes” e fazer uma crítica social em relação à América Latina. É um herói “sem dinheiro, sem recursos, sem inventos sensacionais, débil e tonto”, como diz seu criador, Roberto Bolaños.

Chapolin surgiu em um momento de grande visibilidade para a América Latina. A estreia da série “El Chapulín Colorado”, foi em 1970, ano da Copa do Mundo de Futebol, realizada no México. E, logo após a Olimpíada, sediada também na capital mexicana em 1968, a região foi palco de movimentos estudantis em protesto à Guerra Fria, disputa ideológica, militar e espacial, entre Estados Unidos e União Soviética.

A influência estrangeira nos países latinos foi tema recorrente de “El Chapulín Colorado”. No episódio “La tribu perdida” (1973), uma personagem zomba de Chapolin, declarando que seria melhor ter chamado o Batman no lugar dele. O herói respondeu à altura: “Em primeiro lugar, Batman não está, porque está em lua-de-mel com Robin”. Em “No es lo mismo el pelotón de la frontera, que la pelotera del frontón” (1976), Chapolin, ao usar um cipó para se deslocar, comenta que ensinou o método “a um tal de Tarzan dos macacos, mas ele não aprendeu muito bem”.

Chapolin se enche de patriotismo ao declarar que seus defendidos não precisam de “heróis importados”. O “polegar vermelho” surgiu quando o povo da América Latina se deu conta a urgência de se ter um herói local.

Em “El Chapulín Colorado”, a hegemonia dos países industrializados no mundo subdesenvolvido é simbolizada por meio de “Super Sam”. O personagem é o paradigma do poderio norte-americano e usa um uniforme semelhante ao do Superman – com direito ao famoso símbolo no peito do traje azul – e cartola com as cores da bandeira norte-americana. Como nunca fora chamado para ajudar alguém, suas aparições eram fruto da intromissão nas ações do Chapolin.

Enquanto Chapolin usava sua marreta biônica como arma, Super Sam tinha em mãos um saco de dinheiro, além do bordão “Time is money!”.

A estreia de Super Sam aconteceu em 1973, no episódio “De los metiches líbranos señor”. Nele, o bandido soviético Dimitri Panzov deseja se casar com uma camponesa já comprometida. Ao chamar pelo Chapolin, surge o herói errado, Super Sam. A camponesa insiste que quer ser ajudada pelo Chapolin, que aparece – tropeçando, como sempre.

No episódio, Chapolin e Super Sam duelam para decidir quem protegerá a pobre senhorita. Aproveitando-se da situação, Panzov rapta a moça e a prende dentro de casa com uma bomba. Chapolin corre do soviético, que, cansado, é levado a marretadas para dentro da casa da camponesa. Já Super Sam aproveitou-se da perseguição para entrar no local e desprendê-la, mas ela já havia se soltado e se encontrado com seu noivo.

A última cena do episódio é com o soviético e o norte-americano dentro da casa, Chapolin, acidentalmente, senta no detonador da bomba, que explode. Do interior da casa, saem Dimitri Panzov e Super Sam, abatidos. O soviético usando cartola; o norte-americano, o típico chapéu russo.

Já o episódio “Todos caben en un cuartito, sabiéndolos acomodar” (1977) é carregado de sutis representações da relação entre Estados Unidos e América Latina. Em um hotel com somente um quarto disponível, Chapolin e Super Sam são atendidos por duas pessoas diferentes, que mostram o mesmo quarto aos dois heróis. No entanto, eles não se veem em nenhum momento. Logo na chegada dos personagens à hospedaria, nota-se a discrição e humildade do mexicano – apenas com uma bagagem – e os excessos e o consumismo do norte-americano – trazendo cinco pesadas malas.

No mesmo quarto, América Latina e Estados Unidos se conflitam: enquanto Chapolin fecha a janela do quarto, Super Sam a prefere aberta. Super Sam prepara seu café-da-manhã sozinho (o individualismo presente nos super-heróis e na sociedade norte-americanos) e Chapolin o devora. A hora de dormir ilustra a frase do presidente Cárdenas. Os dois heróis, sem preceber, passaram a noite na mesma cama.

As referências históricas nos episódios de “El Chapulín Colorado”, como a alusão à Guerra Fria (“De los metiches líbranos señor”) e à relação entre norte-americanos e latino-americanos (“Todos caben en un cuartito, sabiéndolos acomodar”), permeiam o trabalho de Roberto Gómez Bolaños em “El Chapulín Colorado”, buscando satirizar uma época conturbada no mundo dos anos 60 e 70. A fraqueza latino-americana, em contraposição ao individualismo estadunidense, não é empecilho para conseguir a vitória, pois o herói, embora não seja forte, é astuto, como diz o famoso grito de Chapolin Colorado: “Não contavam com minha astúcia!”



Comentários Comentários Postados
Fred Wiiliam[17/10/2010 - 20:24]

Cara, issa abordagem a crítica social e imperialista que se faz aos estadunidenses é digna de ser lembrada como qualquer fase da história da humanidade. Pra quem ainda acha que o imperialismo dos EUA foi informal na américa latina não conhece a própria história. Parabéns aos respónsáveis pela pesquisa e "Siga-me os verdadeiros bons".

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