São seis horas da tarde de uma sexta-feira de junho de 2009. O termômetro marca 14ºC. Mesmo assim, os participantes do coral da Cultura Inglesa de Santo André, no Grande ABC, estão lá para o ensaio comandado pelo pianista Tarik Dib.
Não entendem porque o professor está nervoso ao celular, atitude que não condiz com seu jeito tranquilo e engraçado. Perguntam o que está acontecendo. “A secretaria me avisou só agora que a sala onde fica o piano vai ser usada para a aplicação de uma prova. Eu não trouxe o teclado e não dá tempo de voltar em casa. Vou ter que cancelar o ensaio” . Uma aluna diz ter um teclado em casa e que poderia pedir para trazê-lo. O ensaio estaria salvo, mesmo com a sonoridade limitada por um teclado amador.
Curiosamente, momentos antes desse episódio, Tarik havia contado que “a vida de músico é difícil, principalmente para quem vive de música clássica. É até decepcionante, porque há muita dedicação e paga-se mal, ou não te respeitam”. Apesar das dificuldades, “é gratificante quando o músico consegue se consolidar e se sustentar de música”. Estabilidade que foi atingida mas nunca imaginada por ele.
No começo da carreira, Tarik era inseguro quanto à situação profissional do musicista no Brasil. “Hoje existe um mercado bem maior para artistas com a montagem dos musicais. Mas há 14 anos era muito instável”. Até pensou em deixar a música em segundo plano quando entrou na Faculdade de Direito de São Bernardo, em 1999. Graduou-se mesmo frequentando as aulas raramente. “Eu era o aluno fantasma, só aparecia em dia de prova”, brinca. Isso porque a carreira musical começara a ser sua principal e única fonte de renda.
Hoje, o músico mora em um sobrado de quatro quartos em São Bernardo do Campo com a esposa Daniella Dib, 29 anos, e a filha Laura, de um ano e meio. Gosta de passar a maioria do tempo livre em família. “Agora que a Laura já está falando as primeiras palavras e começando a andar, cada descoberta é uma diversão. Se ficar com a família fosse considerado um hobby, esse seria o meu”, comenta. O piano fica na sala. Nenhum outro? “Não, só um. Nem gostaria de outro piano. Só queria um melhor, um Yamaha.”
O instrumento é a sua paixão desde quando começou a se interessar por música, aos nove anos. “A escolha pelo piano foi natural”. Teve as primeiras noções de música estudando flauta doce em Riberão Pires, sua cidade natal. Aprendeu também teclado e órgão elétrico até chegar ao piano.
Seus professores perceberam a aptidão para a arte e o recomendaram à Universidade Livre de Música (atualmente ligada ao Centro Tom Jobim), quando teve aulas com a professora Terão Chebl, pianista camerista e integrante d’O Trio da Canção Brasileira. “Desde o começo Tarik mostrou particularidade no seu modo de tocar, sem deixar de lado o contexto em que a composição foi criada”, afirma com orgulho a professora.
O talento rendeu um convite para tocar no Festival de Inverno de Campos do Jordão em 1994, aos 19 anos e, no ano seguinte, uma bolsa na Universidade da Flórida para um curso livre de piano com músicos de outros países da América Latina.
Mas a ocasião que mais orgulhou Tarik foi ter participado da vinda do Papa Bento XVI ao Brasil, em 2007. Requisitado pelo regente do Instituto Baccarelli, Roberto Tibiriçá, o pianista apresentou uma peça de Camargo Guanieri durante a missa celebrada exclusivamente para bispos e cardeais. “Era um mundo de gente e eu estava ao lado do Papa. Foi emocionante”, relembra.
Atualmente, sua rotina não parece em nada com os tempos de estudante de piano de concerto. Costumava passar de oito a doze horas aperfeiçoando a técnica. Além de dar aulas de canto-coral, foi diretor dos cursos de música do SESI São Paulo e diretor artístico da Orquestra de São Bernardo até 2008. Segundo Daniel Havens, 62 anos, regente da orquestra de São Bernardo, Tarik “entendia as necessidades da orquestra e sempre tinha agilidade em resolver os problemas”.
Mestre em Musicologia pela USP, Tarik deseja se dedicar cada vez mais à parte administrativa. “Acho importante um musicista como diretor de uma orquestra, por exemplo. Ele entenderia os problemas melhor do que qualquer outro”. Mas não pretende abandonar o piano. “Faz 13 anos que vivo de música, não dá para mudar mais, vou morrer fazendo isso”, conclui.
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