Na adaptação teatral de “As meninas”, Maria Adelaide Amaral fez dramaturgia com poesia. Extraiu do texto de Lygia Fagundes Telles o melhor da prosa e construiu um espetáculo para emocionar o público. Somando-se a isto a direção de Yara Novaes e a atuação brilhante do elenco. O resultado é uma peça concisa, repleta de elementos que fazem o público viajar pelo universo particular de três meninas com personalidades e comportamentos completamente diferentes que vivem em um pensionato de freiras na São Paulo dos anos 1970, em plena ditadura militar.
Lorena estuda direito e vem de uma família quatrocentona tradicional. Doce e delicada,alimenta o sonho de casar com um homem mais velho e comprometido. Lia é uma ativista que trancou o curso de Ciências Sociais e mantém ligações clandestinas com grupos de esquerda. E Ana Clara, a mais problemática das três, é uma jovem sonhadora, imersa no mundo das drogas. Estuda psicologia, mas sonha em ser uma modelo famosa. Porém, mais do que isso, é preciso “não cair nos estereótipos que cercam cada personagem”, como conta Luciana Brites, intérprete de Ana Clara.
Estereótipos à parte, cada uma das três atrizes mergulhou fundo para compor uma imagem forte de seus respectivos papéis, à procura de camadas das protagonistas. Silvia Lourenço (Lia) conta que não teve dificuldades para interpretar o texto de Lygia, que, segundo ela, oferece um universo bastante rico de imagens e de possibilidades de interpretação. Seu maior desafio, porém, foi embarcar numa pesquisa histórica sobre uma época em que não viveu. “A Lia é a tradução da época, a personagem que data a obra”, completa. Já Clarissa Rockenbach, que também é produtora da peça, diz que buscou inúmeras referências no texto para compor Lorena. “É uma personagem generosa, com várias nuances para trabalhar. Eu tenho algumas coisas meio ‘loreninhas’ e isso me encantou”, diverte-se. E Luciana completa: “quando vi a curva dramática da Ana Clara, achei que fosse um prato cheio. Existe uma glória às avessas na personagem, um percurso de força”.
Único homem no elenco, Julio Machado fala da responsabilidade e da honra de fazer parte da equipe e de interpretar três personagens (Max, Guga e M.N.): “cada um desses homens serve para um mesmo propósito, o de ser o pilar dessas mulheres, segundo o que a própria Lygia disse”. Machado também teve de aprender, em dois meses, a tocar piano e a exercitar o canto. “Eu me divirto na medida do possível, mas é uma experiência maravilhosa, além de um grande exercício para o ator”.
Luciana Brites credita o sucesso da peça a três fatores principais: o fato de ser uma adaptação de uma obra literária, atraindo para o teatro os leitores de Lygia Fagundes Telles, a participação de Maria Adelaide Amaral na assinatura do roteiro e a sinergia do elenco. Isso tudo, segundo ela, faz de “As meninas” uma “peça comercial com qualidade, que une o que o público quer ver”, diz, com um sorriso de orelha a orelha. E o resultado em questão são sessões lotadas, o que obrigou a produção a abrir apresentações extras.
Tuna Dwek (Irmã Priscila) interpreta a freira que é a síntese, na peça, de todas as outras da obra de Lygia. E é só elogios para a adaptação de Maria Adelaide: “ela consegue tanta verdade, coloca o texto na embocadura do ator. Ela escreve de uma maneira verdadeira, não abrindo concessões, pois manteve o texto da Lygia”. Adelaide inseriu humor em um texto essencialmente dramático. Em relação a tal fato, Tuna, que já conhece o trabalho da dramaturga e é autora de sua biografia, completa: “ela faz cortes. Quando o ator começa a embarcar na emoção, ela corta e parte para o cômico. Ela diz que escreve como a vida é, sempre com dois lados”. Os relacionamentos humanos, segundo Tuna, é o grande interesse tanto das obras de Maria Adelaide como da literatura de Lygia Fagundes Telles, o que a deixa segura na hora de interpretar o texto e entrar em cena. “Ele foi escrito de uma maneira sincera”, finaliza.
Para a próxima temporada, a expectativa é enorme. “Temos uma programação de divulgação de mídia, imprescindível para um espetáculo, mas estamos seguros, fazendo a nossa parte. Agora é esperar para que o público venha”, relata Clarissa. A atriz e produtora conta ainda que pretendem ficar bastante tempo em São Paulo, mas que estão em editais para seguir com uma turnê para outras cidades do Brasil. “Pretendemos ir, pelo menos, para Curitiba, Porto Alegre, Brasília e Rio de Janeiro”, diz.
“As meninas” sai de cartaz no dia 13 de dezembro para o recesso de fim de ano, volta em 2010, em 23 de janeiro e fica até abril. As apresentações ocorrem todos os sábados, às 21 horas, e aos domingos, às 18, no Teatro Eva Hertz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional na Avenida Paulista. O valor do ingresso é de R$40,00.
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