Relatos sobre a atuação de Nasser como repórter e jornalista
Luiz Maklouf Carvalho, jornalista com carreira exemplar em pesquisa, fez um trabalho grande de apuração entre 1999 até 2001. O resultado é a grande história do repórter David Nasser junto com grandes trabalhos fotográficos do francês Jean Manzon.
O livro Cobras Criadas reflete o clima de parcialidade no jornalismo de David Nasser, especialmente em reportagens constrangedoras feitas sobre o deputado Barreto Pinto, em 1946, ou o “flagrante” da madame Chiang Kai-shek, em setembro de 1944, com fotos do próprio jornalista vestido de mulher. Sendo um profissional dos Diários Associados, Nasser foi uma representação da imprensa com poder político na época, da atuação de Assis Chateaubriand, o Chatô, na frente de personalidades como Roberto Marinho ou Adolfo Bloch.
O Cruzeiro, a revista mais retratada na apuração de Maklouf, refletia outra realidade dos jornais, que não corriam para trazer a primeira notícia, mas faziam longas narrativas, muitas vezes com dados mentirosos. Eram textos sedutores e não, necessariamente, preocupados com a ética da imprensa. Nasser se envolveu e criticou grandes nomes da época, como o presidente Getúlio Vargas, especialmente antes do suicídio, e os generais que assumiram o controle do país a partir de 1964.
Ele era conhecido como “o Turco”, devido a ascendência libanesa. Era manco de uma das pernas e tinha um talento para criar manchetes de impacto, usando sensacionalismo. Como é dito no livro, “morreu aos 63 anos, no Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 1980, rico e ainda influente como articulista da revista Manchete”, concorrente de Chateaubriand. Muito do sucesso em vida se deu por laços íntimos com pessoas influentes. É uma lição sobre o jornalismo em tempos passados e como certas práticas semelhantes são evitadas hoje em dia, impedindo a transmissão de informações errôneas.
Jean Manzon foi o fotógrafo que colaborou com essa prática de incluir ficção em muitas reportagens. Ele chegou, em 6 de maio de 1944, a publicar a própria morte em O Cruzeiro, na matéria A vida dos mortos, assinada por Nasser, feita no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. E antes que as pessoas pensem que Manzon vinha de um jornalismo sensacionalista, ele cobriu a Guerra Civil Espanhola para o jornal Paris-Soir, fez reportagens fotográficas sobre o avanço do nazismo na revista Match, até chegar ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo ditatorial de Getúlio Vargas, vindo para o Brasil. Instruiu fotógrafos brasileiros a investir em enquadramentos e ângulos novos, mesmo muito desse material sendo forjado.
Apesar do excesso de pesquisa, Cobras Criadas é uma lição para jovens jornalistas. É uma aula de como estruturar horas de declarações gravadas e material histórico. Todas as pontas da história, envolvendo as famílias Manzon e Nasser, além de jornalistas que viram o trabalho de ambos, traçam uma verdadeira cultura de época, muito diferente dos nossos tempos de internet.
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