José Ramos Tinhorão analisa a música brasileira em "Pequena História da Música Popular"
José Ramos Tinhorão atuou como colunista e crítico musical, em jornais, por muitos anos, lançou mais de dez de livros sobre música popular, de "Música popular: um tema em debate", publicado em 1966, até "Domingos Caldas Barbosa - O Poeta da Viola, da Modinha e do Lundu", de 2004.
Em "Pequena História da Música Popular" traça uma linha cronológica a respeito de suas raízes e desenvolvimento. Das chamadas modinhas, passando pelo lundu, maxixe, choro, marcha, samba, frevo, gêneros rurais, baião, bossa nova (de muita má vontade) e um breve panorama das músicas de protesto. Estes diferentes estilos são exemplificados com trechos de letras de músicas, citações de livros e, em menor escala, fatos históricos contextualizados.
Ao supor que a música popular, em qualquer forma, é fruto da diversidade social, subsidiada pelo aparecimento das cidades contemporâneas, Tinhorão deixa claros os conflitos entre as classes sociais, em relação à aceitação dos mais variados tipos de música.
Na maioria dos gêneros, principalmente na modinha, lundu e maxixe, os conflitos sociais e raciais parecem deter o foco crítico do autor. Quando, inevitavelmente, as relações passam a ser mais econômicas do que dividida por raças, as críticas de Tinhorão se acentuam. A impressão é que a música estabelecida por relações desiguais, mas em grupos mais homogeneizados, economicamente, ficava mais "puro" e "válido". Como em relação à marcha-rancho, "produção consciente de profissionais da primeira geração de compositores do rádio da década de 1930, interessados em capitalizar o espírito musical e a beleza dos desfiles de ranchos cariocas".
Essa vertente crítica fica clara nos comentários sobre a Bossa Nova. "A nova geração de jovens de nível universitário de 1950 acreditou que a canção tradicional tinha esgotado as suas possibilidades e partiram para a reformulação de inspiração jazística do samba, que se chamaria Bossa Nova".
Em contraposição, quando define aspectos do lundu, por exemplo, mune-se de intenção mais branda, "era exatamente para acentuar essa intenção poética dentro do ritmo cadenciado que o tocador de viola procurava fazer as cordas chorarem, isto é, chegarem sonoramente a um efeito expressivo capaz de acentuar a intenção do texto".
O autor vê a música popular brasileira, principalmente as mais antigas, como um esplendor máximo, capaz de se livrar das influências, sendo apenas apta a despertar influências em outros estilos, principalmente da Europa. É inaceitável ser desvirtuada por classes mais abastadas da sociedade em busca de renovação. Assim, pinta, em meio à realidade, sua tentativa de mudar a visão da música popular brasileira.