Audálio Dantas lança livro sobre Lula e fala sobre sua trajetória na imprensa
Os olhos cansados por trás dos óculos retangulares viram momentos marcantes da história brasileira: o golpe de 1964, o Ato Institucional Nº 5 (que suspendeu, entre outras coisas, a liberdade de expressão e de imprensa), a morte de Vladimir Herzog, a reabertura política e a reconquista das liberdades. Audálio Dantas começou sua carreira como jornalista na Folha em 1954, seis anos antes de os três títulos da empresa (Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite) serem agrupados para formar o jornal Folha de S.Paulo.
No último sábado (28), Dantas lançou o livro O Menino Lula, sobre a infância do presidente Luís Inácio Lula da Silva no sertão de Pernambuco. A ideia era continuar a série que já contou sobre os primeiros anos de Graciliano Ramos, Mauricio de Sousa, Ruth Rocha e Ziraldo. Mas o projeto inicial mudou bastante desde a sua concepção, há dois anos. “É uma historia pesadíssima, de uma vida muito pobre, miserável. Depois que tive a conversa com ele, verifiquei que não era para ser uma história infanto-juvenil”, conta Dantas, cuja história de vida também começou no Nordeste, em Tanque d’Arca, Alagoas. No prefácio da obra, Ricardo Kotscho afirma que “por suas origens comuns, filhos da mesma terra seca, só mesmo o menino Audálio poderia contar, com sua alma nordestina e maestria de prosador, a história do menino Lula”.
Reportagens célebres
Entre os livros que escreveu, estão O Circo do Desespero, Repórteres, O Chão de Graciliano e Quarto de Despejo. O primeiro leva o título de uma reportagem feita em 1963 para a revista O Cruzeiro, para a qual foi convidado no final de 1959. “Lá eu comecei a fazer as reportagens mais importantes da minha carreira”, afirma.
Em Circo, ele escreveu sobre uma maratona de dança carnavalesca que acontecia no Ginásio do Ibirapuera, onde centenas de pessoas competiam para ver quem conseguia dançar da sexta-feira à noite até a Quarta-Feira de Cinzas. “Eu contei essa história de uma maneira que não era usual. Fui descrevendo a cena: ninguém tinha nome, os dançarinos tinham número, e eu ia dizendo a reação das pessoas, principalmente no final, quando elas estavam na exaustão”.
Ainda na redação do Cruzeiro, fez a reportagem “Nossos desamados irmãos loucos”, no Hospital Psiquiátrico do Juqueri. “Na época era uma barbaridade. Havia 13 mil enfermos num espaço que era feito para 3 mil. Rigorosamente, era um campo de concentração”, diz.
Jornalismo diferente
“O golpe de 64 foi um momento traumático, mas ao mesmo tempo surgiu um jornalismo muito forte, influência do novo jornalismo americano”, conta Dantas. Foi nesta época que ele integrou a equipe da revista Realidade. “Esta revista foi muito importante para o jornalismo brasileiro e para mim também, porque a minha tendência sempre foi a reportagem”, explica.
Quando surgiu o New Journalism, o jornalista viu no fenômeno algo que já conhecia, como o livro-reportagem Milésima Segunda Noite na Avenida, de Joel Silveira. Na mesma linha, ele cita Gay Talese com Frank Sinatra está resfriado. “O repórter criava o estilo e o modo de fazer reportagem”, afirma. Foi na Realidade que Audálio Dantas escreveu outra matéria de destaque: Povo Caranguejo. “É a história de uma comunidade no litoral da Paraíba que vive da caça de caranguejo, então eu descrevi a caça, mas fazendo o contraponto com o caçador. Me coloquei no lugar do caranguejo”. Para ele, o resultado deste trabalho é uma “subversão do texto clássico jornalístico”.
Em 1972, Audálio Dantas recebeu o Prêmio SUDENE de Jornalismo pela edição especial da revista Realidade sobre o Nordeste brasileiro. Consta em alguns sites que ele teria recebido um prêmio da ONU por este trabalho, no entanto isto não passa de um equívoco - o Prêmio de Humanismo da ONU foi dado a Dantas em 1981, por sua atuação em defesa dos direitos humanos.
A luta pelas liberdades do cidadão e da imprensa levou Dantas a transitar entre o jornalismo, o sindicalismo e a política. No ano de 1975, ele foi eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em um momento delicado da história brasileira. “Eu peguei o final do governo Médici, o mais sanguinário de todos, e o começo do governo Geisel, que era uma proposta de abertura política”, lembra.
Ainda naquele ano, lidou com a morte do jornalista Vladimir Herzog. “A morte do Herzog foi o primeiro caso de denúncia publica de um assassinato daquela natureza, e iniciou o restabelecimento da liberdade de imprensa. Muitas das publicações que se mantinham em silêncio começaram a noticiar a partir do episódio. A Folha ficou sem publicar editorial desde janeiro de 1969, mês seguinte ao AI 5. Era uma atitude defensiva. Mas depois do culto ecumênico [feito em homenagem à morte de Vladimir Herzog], voltou o editorial da Folha”, relata.
Na política
Apesar de afirmar que sua carreira como repórter acabou quando assumiu a presidência do sindicato, Dantas garante não ter se arrependido da troca, pois seu foco sempre foi o jornalismo. Ele ainda passou pelo mundo da política ao ser eleito deputado federal em 1978. “Como parlamentar, eu dediquei 90% do meu mandato à luta pelas liberdades em geral, mas especificamente pela liberdade de informação. Nunca deixei o jornalismo”. Ao deixar a câmara, em 1983, ele foi eleito presidente da Federação Nacional dos Jornalistas.
Audálio Dantas assumiu a vice-presidência da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em 2005. Foi lá que ele organizou, em 2007, o Salão do Jornalista Escritor, reunindo diversas personalidades do jornalismo literário para discutir o assunto com o público - logo ele percebeu que seus esforços não iriam muito longe. “Descobri que esta renovação não era aquilo que eu esperava. Saí em 2008 por discordar dos rumos que ela estava tomando”, afirma. Os mandos e desmandos do presidente, Maurício Azêdo, e a falta de organização deixaram-no frustrado. “A ABI foi, digamos, um acidente de percurso”.
Fim da reportagem?
“Algumas pessoas afirmam que a reportagem acabou. Não é verdade, ela não acabou porque sempre aparece um repórter querendo fazer uma grande reportagem, e às vezes ele se vira e faz. O que acabou foi o investimento empresarial na reportagem”, diz. O enxugamento das redações e o hábito de fazer matérias por telefone, para economizar, acabaram empobrecendo o jornalismo tão defendido por ele. “É claro que não se pode fazer uma excelente reportagem pelo telefone. Pode-se fazer uma matéria importante, de denúncia, mas é necessário o aprofundamento”, defende. Este cenário desanimador existente nas redações levou os repórteres a procurar outras maneiras de fazer suas matérias. “O livro é uma tendência. Hoje a grande reportagem está em livro, não está mais em jornais e revistas”.
Depois de lutar contra a ditadura militar, Dantas poderia dizer que hoje o jornalista é livre, finalmente. Mas a censura ainda existe. “Quando você vê donos de meios de comunicação gritando pela liberdade de informação, isso é uma meia verdade, porque essa liberdade de imprensa é muito relativa. Os interesses econômicos da própria empresa, ou daqueles grupos que ela representa, ou dos anunciantes, prevalecem”. Para ele, a forma mais grave de censura é a omissão da informação, muitas vezes decorrente deste direcionamento feito pelos objetivos econômicos.
Diploma de jornalista
“Sempre defendi a exigência da formação superior para o exercício da profissão, por varias razões. A primeira delas é que independentemente da qualidade do ensino, a formação universitária proporciona o melhor aparelhamento do sujeito para ser jornalista. O outro ponto é que a exigência da formação específica possibilita uma melhor organização da categoria dos jornalistas e do sindicato”, afirma Dantas. Ele mesmo não possui formação, algo comum entre os profissionais das gerações passadas, como seus colegas da Realidade, Jorge Andrade, teatrólogo, e Gilberto Freyre, psiquiatra. “Aqueles que foram com a vocação e se dedicaram foram excelentes jornalistas, e pode acontecer a mesma coisa hoje, mas isso não elimina a importância da exigência da formação específica”.
Atualmente, ele é editor-executivo da revista Negócios da Comunicação. “Faço uma coisa que não é bem o que eu gostava, eu não gostava de ficar na redação”, assume, justificando que a globalização da economia achatou os salários dos trabalhadores e o levou a trabalhar até hoje. A alma de jornalista que vai atrás da informação, porém, continua firme. “Em 2002, fui convidado para um simpósio sobre a globalização da economia no Iraque. Fiz uma palestra, mas aí sai feito um doido e fiz uma reportagem sobre a expectativa da guerra que estava para acontecer”. Aos 80 anos, Audálio Dantas é o eterno repórter.