“Ele tem medo do Dom Quixote, talvez porque seja um personagem muito autobiográfico”, conta Neusa Martins. A brincadeira com fundo de verdade da esposa do artista Tom Zé e depoente do filme Tom Zé Astronauta Libertado ajuda a sintetizar em uma simples frase toda a complexa personalidade e originalidade da produção do músico baiano ao longo de sua vida.
O longa estreou no dia 24 de outubro de 2009, em sessão especial para a 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com a presença do diretor espanhol Ígor Iglesias González, do músico homenageado com o documentário de 90 minutos e da companheira Neusa.
Cenas do compositor de 73 anos praticando movimentos da arte milenar chinesa do Tai Chi Chuan intercaladas com uma discussão promovida por ele sobre o surgimento das ideias iniciam o filme. “Uma ideia a princípio não pesa, não ocupa lugar na cabeça. É elemento pobre que precisa ser trabalhado”. Tom Zé, na verdade, está conversando com alunos de uma oficina musical ministrada por ele em Astúrias, na Espanha, em 2008.
Antônio José Santana Martins, verdadeiro nome de Tom Zé, surgiu na cena musical brasileira na década de 1960, junto ao movimento Tropicalista. Defini-lo como um tropicalista seria o mesmo que prendê-lo a um rótulo. O documentário mostra que o trabalho crítico dele é transformador e provocativo aos dias de hoje, como foi no passado, e que pode ser levado ao futuro.
Além de Neusa Martins, os músicos Rita Lee, José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, e o maestro, Julio Medaglia, fazem parte da narrativa cinematográfica do artista. A oficina em Astúrias serve de gancho para contar a ascensão, o período de ostracismo e depressão e a volta do músico, que alcançou sucesso na Europa.
Os anos às escuras foram de sofrimento, mas também de estudo e experimentação. José Miguel Wisnik afirma que Tom Zé foi o primeiro a trabalhar com samplers, ou seja, com sons, músicas ou canções previamente gravados para criar um novo produto musical.
Ao ser “achado” pelo músico britânico integrante da banda Talking Heads, David Byrne, o artista foi ao encontro do reconhecimento. O documentário mostra imagens antigas de Byrne contando que no final da década de 1980, comprou no Brasil o LP do compositor baiano, Estudando o Samba. De volta à Inglaterra, ao ouvi-lo se impressionou com a originalidade da desconstrução do gênero musical brasileiro mais divulgado e desejou conhecê-lo. Voltou ao país e na viagem de volta levou Tom Zé na bagagem.
Entre imagens de arquivo e cenas na Espanha, o músico é comparado a alguém que vive andando à beira do abismo e à margem da MPB por não aceitar as regras de mercado e por ter pago o preço do esquecimento. E que hoje ainda se recusa a deixar suas posições de lado, mas alcançou respeito como artista brasileiro.
As belíssimas discussões, principalmente sobre as ideias, valem a estreia do diretor nas grandes telas. Sobre o filme, ao fim da sessão, o cinesta contou que é fã de música brasileira e que por isso encontrou a obra do homenageado. Há nove anos, imaginava tornar o projeto da criação de um documentário sobre a vida do artista realidade. Tom Zé estava emocionado e não conseguia encontrar as palavras para se expressar e pedia a Neusa para ajudá-lo.