Cacilda Becker - Fúria Santa, de Luis André do Prado
O livro Cacilda Becker - Fúria Santa, de Luis André do Prado publicado em 2002 pela Geração Editorial, apresenta a trajetória de uma das principais atrizes brasileiras. Nascida no interior de São Paulo, filha de alemães, Cacilda Yaconis Becker – a Cidinha – teve uma infância miserável. Filha primogênita, ajudou a mãe a criar e educar as irmãs Dulce e Cleide.
Talentosa, curiosa e autêntica. Os dons artísticos se manifestaram logo no início da adolescência. Cacilda subiu ao palco pela primeira vez com dez anos de idade numa apresentação escolar, em que encenou A Dança do ritual do fogo a partir de movimentos improvisados e impulsionados pela música. Como bailarina foi considerada a Isadora Duncan brasileira – bailarina americana, considerada a pioneira da dança moderna – tendo sua performance comparada ao da alemã Mary Wigman - que ao lado de Rudolph Laban preconizou a dança contemporânea na década de 1940.
Em palcos nas praias do litoral santista, nos clubes e nas festas da burguesia paulista, Cacilda foi aos poucos sendo inserida como atriz à elite intelectual, conquistando espaço até que chegar aos palcos da metrópole.
A biografia apresenta a trajetória em dezenove capítulos, com um texto de abertura assinado por Alberto Guzik e o epílogo de Carlos Drummond. Logo nas primeiras páginas o leitor é seduzido pelo texto impecável de Guzik: "Ela fez parte de uma geração de titãs". Contudo, é no poema de Drummond que é sublimado o brilho da principal atriz brasileira: "morreram Cacilda Becker. Não era uma só, eram tantas". A arte da capa, a diagramação do texto, as fotos e o papel fosco envolvem o leitor na história e, no universo de sedução, dor, glamour e amores.
Além da trajetória pessoal de Cacilda, a obra de Prado apresenta a história do teatro brasileiro entrelaçada com o desenvolvimento da imprensa brasileira, permeado pela transição do cenário político-cultural brasileiro. Com uma rica pesquisa bibliográfica e iconográfica, a narrativa é construída a partir de depoimentos e entrevistas de pessoas próximas à atriz.
A essência da biografia é não se prender apenas aos fatos, mas usá-los a serviço da construção da personagem. Assim, o autor possibilita ao leitor uma compreensão histórica para além dos palcos e dos gestos da atriz, e o insere no universo mágico e polifônico da criação e vivência teatral de Cacilda.
A obra é construída num ciclo-ritual do morrer-nascer-morrer. Por meio de relatos do filho, do ex-marido, do público e do amigo, é reconstituída a cena da morte da atriz. A narrativa em primeira pessoa aproxima o leitor que aos poucos se emociona e se surpreende. Atuar é um eterno nascer-morrer. A criação artística, o pisar no palco e a busca por um gesto poético fizeram de Cacilda uma legítima sacerdotisa de Dionísio, atriz da arte do êxtase, em que nada era ou foi estático. A arte, o teatro e a dança se apresentavam como expressão da vida: movimento e transformação.
A atriz que primeiro se revelou, ainda adolescente, como bailarina da dança improvisada, sentida, muda e calada, viu no teatro a possibilidade de expressar sua visceralidade, sua força e, sobretudo, sua sobrevivência. Enquanto, nos anos 1960, o Teatro Arena e Teatro Oficina lutavam por um teatro político e engajado, Cacilda defendia a arte pela arte, o teatro como fonte de fuga e prazer inesgotável para o espectador sem, contudo, se isentar das lutas políticas da época.
Cacilda Becker – Fúria Santa é um livro sobre luta e sobrevivência. Além de ser uma viagem pelas narrativas que constroem a arte cênica contemporânea brasileira.