Teatro não dá futuro para ninguém. Vai viver do quê se você for fazer teatro? Qualquer ator, em algum momento da vida, se depara com uma destas afirmações ou indagações. E a Companhia de Teatro Os Satyros as ignora sistematicamente há 20 anos.
Em 1989, Rodolfo García Vázquez, Ivam Cabral e Silvanah Santos criaram o grupo levando aos palcos uma peça infantil, chamada Arlequim. No mesmo ano, encenaram Qorpo Santo Dois – Revisitando, sobre a obra do dramaturgo brasileiro do non sense. Um ano depois, deram partida para um extenso trabalho em cima da obra de Marquês de Sade, iniciado com Sade ou Noite dos Professores Imorais. Mais tarde, a começar de 2003, iriam levar aos palcos ainda A Filosofia na Alcova, 120 Dias de Sodoma e Justine, todas sobre o mesmo autor.
Nos primeiros anos, no entanto, o grupo enfrentou alguns percalços. Em 1992, os atores decidiram se mudar do Brasil, desanimados com a situação da arte no país e, no fundo, ouvindo aquela voz que diz a qualquer ator, em qualquer cidade destes cantos: não vale a pena fazer teatro por aqui. Foram para Portugal, onde passaram três anos.
Só em 2000, contudo, a situação começou a melhorar. Neste ano, o grupo abriu uma sede em um dos pontos mais desprezados de São Paulo: a Praça Roosevelt, lugar conhecido pela grande concentração de travestis e traficantes no centro da cidade. Ou seja, o primeiro obstáculo a enfrentar era trazer o público para o teatro e livrá-lo dos preconceitos e medos com relação ao local.
Hoje, nove anos depois, a mesma praça ganhou sua sétima sala de espetáculos em abril último. São eles: Espaço dos Parlapatões, Satyros Um e Dois, Studio 184, Teatro do Ator e Miniteatro. Numa quarta-feira, à noite, por exemplo, o pedestre da região se depara com mesinhas na calçada dos estabelecimentos, pessoas conversando no meio da rua estreita, uma filial da rede de supermercados Compre Bem e até ambulantes vendendo pirulitos e revistas para colorir.
Os vinte anos do grupo de teatro Os Satyros não fazem diferença na vida de muita gente. A Praça Roosevelt não conseguiu tirar o paulistano de casa e o teatro ainda é uma arte em decadência, ao menos em termo de alcance e de público. A qualidade dos espetáculos oferecidos pelo grupo, que abriu ainda uma terceira unidade na Zona Leste da cidade, é elogiada pelos críticos, mas discutida por muitas correntes de teatro paulistanas.
A data é uma conquista a ser comemorada exatamente porque os membros do grupo ousam lutar por sua arte, ousam não ligar para os comentários, ousam fazer da Praça Roosevelt uma bandeira para seu movimento. Ousam participar ativamente de projetos em que acreditam e não se importam com as críticas. Em vinte anos de história, não prestaram atenção quando ouvem que teatro não dá futuro para ninguém.