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22/06/2012 - 15h55 - Atualizado em 21/05/2013 - 10h48

O olhar para o outro

Priscila Kesselring, 1º ano de jornalismo

Lançamento do livro Dignidade! lota Teatro Eva Herz

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Priscila Kesselring
Jornalista Eliane Brum autografa livro Dignidade!

Com a plateia lotada do Teatro Eva Herz, no Conjunto Nacional, o lançamento do livro Dignidade! (editora Leya) aconteceu na última segunda-feira (18) e foi a prova de que ainda há espaço – e muito – para grandes reportagens que contam histórias de pessoas. Concebido para marcar os quarenta anos da fundação Médicos Sem Fronteiras (MSF), o livro contou com a participação de nove escritores de diferentes nacionalidades, entre eles, Eliane Brum, Mário Vargas Llosa e Paolo Giordano. Cada autor vivenciou situações-limite em que atua a MSF, e o resultado foi mais do que um relato do trabalho da fundação, mas , sobretudo, da singularidade da vida de quem está na invisibilidade nos dias atuais.

“Eu não sairia de casa se não fosse para me envolver com as pessoas”. Essa afirmação caracteriza as palavras comoventes de todos os textos da jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum. O bate-papo com ela durante o lançamento do Dignidade! não foi diferente. Dedicada a olhar o outro em sua complexidade, a autora contribui com a riqueza do livro ao fugir de temas do senso comum.

Ao escrever o capítulo “Os vampiros da realidade só matam pobres”, Brum revela a sua sensibilidade e capacidade de entrar no cotidiano de famílias bolivianas que têm a doença de Chagas. “Não foi uma tarefa fácil, quando voltei da Bolívia não conseguia comer direito e fiquei sem escrever uma linha por duas semanas; aquilo me paralisou” lembra a jornalista. Ela afirma que a Vinchuca, nome na língua falada na região (o quéchua) para o barbeiro que transmite Chagas, está presente no dia a dia de todas as famílias nos vales da Bolívia.

No lançamento do livro, Brum conta do seu envolvimento com Sônia, uma menina boliviana de 11 anos, que pediu a jornalista que não a deixasse morrer pela doença de Chagas. Ao prometer para a Sônia que contaria a sua história para o mundo, a escritora diz ter vivenciado o maior sentimento de impotência até então. Apesar disso, ela reconhece a importância e os limites de sua atuação. “Era o máximo que eu poderia fazer por Sônia”.

Esse mesmo sentimento também faz parte da rotina de Mauro Nunes, enfermeiro e presidente do conselho de MSF-Brasil. Assim como Eliane Brum, ele não vê o seu trabalho sem um envolvimento com a realidade das populações assistidas. “Isso é uma vocação que você tem que ter desde cedo, de sempre enxergar o humano em cada um”, diz o enfermeiro, que passa de nove meses a um ano em locais como campos de refugiados nos países africanos, nos quais as situações de violência agravam os problemas de saúde.

Brum e Nunes são exemplos de profissionais que nadam contra a corrente das exigências do mercado hoje. Tanto as notícias quanto os atendimentos de saúde são cada vez mais vendáveis e rápidos, na medida em que o mundo conectado e massificado acelera os seus motores em um ritmo que nem ele é mais capaz de controlar. Dessa forma, é preciso que haja um movimento de desaceleração e de ressignificação da unicidade e do extraordinário presente nas vidas de cada um. Longe de serem comuns, as histórias das personagens de Dignidade! retomam a importância do olhar para o outro. Leitura indispensável!