Dos quadrinhos à TV, os zumbis contaminaram o imaginário do público. O sucesso da série "The Walking Dead" mostra quando o tema está em alta

À primeira vista eles podem parecer pessoas normais. Mas a maneira arrastada de andar, o sangue e ferimentos espalhados pelo corpo evidenciam que além da semelhança física, os zumbis não têm mais nada de humano. Pelo contrário, eles se movem com o único – e medonho – objetivo de se alimentar da nossa carne. E cuidado, apenas uma mordida e você se tornará um deles. Mas de onde surgiram os mortos vivos?
Grande é o esforço, tanto do cinema como da TV, de livros e quadrinhos, de entender como ocorre essa contaminação – e como sair dela vivo. “Zumbis são, desde os grandes filmes de George Romero e além, uma forma de se analisar e criticar a sociedade”, conta Leonardo Vicente Di Sessa, cinéfilo e colunista do site HQ Maniacs (www. hqmaniacs.uol.com.br). “O terror se torna pano de fundo para uma crítica disfarçada que calha perfeitamente com o momento mundial atual: crises econômicas, terrorismo, corrupção e o povo se revoltando – às vezes armado – em diversos países. O medo do que o próprio ser humano é capaz é o verdadeiro terror na maioria destas obras”.

O INÍCIO
Os zumbis apareceram pela primeira vez em filmes de terror dos anos 1930 e 1940, como White Zombie (United Artists, 1932). No longa um jovem casal vai ao Haiti, onde planeja realizar o matrimônio na casa de um amigo. Porém, o anfitrião nutre uma paixão secreta pela noiva e contrata um feitiçeiro – interpretado por Bela Lugosi, eternizado no papel de Drácula – para ajudá-lo a conquistá-la. Assim, uma magia vodu é lançada sobre a moça, que morre e, quando volta à vida, se entrega ao amor do amigo.
Naquela época, o conceito de zumbi era diferente do que temos agora. A transformação acontecia quando alguém, geralmente conhecedor de vodu ou magia negra, conseguia dominar sua vítima. A pessoa em questão morria e ressuscitava como escrava de quem havia lançado o feitiço. Portanto, onde havia um zumbi, havia também quem o controlasse, e era o mestre quem devia ser temido. Esta crença não existe somente no imaginário da sétima arte. Na Angola, durante a guerra civil, crianças e velhos eram acusados de usar feitiçaria vodu, sob a pena de morte. Logo, menos bocas para alimentar durante o conflito.
Porém, grandes mudanças vieram em 1962, com o filme A noite dos mortos vivos (produzido por The Walter Reade Organization), de George A. Romero. A história conta como sete pessoas, presas em uma casa rural, tentam sobreviver à primeira noite de ataques dos mortos vivos. Foi nesse longa que se formou a concepção do “zumbi moderno”: mortos que voltam a vida, trazendo de volta consigo apenas a fome por humanos.
CONTÁGIO
Agora a única duvida que resta é saber como o contágio começou. Várias foram as explicações, indo de vírus mortal até reação nuclear, todas chegando ao mesmo resultado: zumbis. “Com os quadrinhos dos Os Mortos Vivos (The Wakling Dead), de Robert Kirkman, o sucesso voltou, mas o HQ não é o grande responsável. No prefácio de Os Mortos Vivos, o autor diz que o quadrinho não é sobre zumbis: é sobre a convivência humana quando você perde coisas básicas da sociedade, por exemplo, sem televisão, sem água quente, sem cama. Então, a história tem esse foco da convivência humana”, explica Rodrigo do Santos, atendente da loja de quadrinhos COMIX.
Rodrigo também observa que os zumbis dos quadrinhos e das séries são absolutamente diferentes. “Os dos quadrinhos são mais tranquilos. Para ser pego por um zumbi na HQ, o personagem tem de ser muito idiota. Já na TV, não. Eles têm um pouco mais de inteligência”, comenta
DISSEMINAÇÕES
A partir desses conceitos foram desenvolvidas as mais variadas histórias. Um exemplo é Resident Evil. Tudo começou com um jogo de vídeo game, lançado pela Capcom para PlayStation, em 1996. O enredo conta a história de como um grupo da unidade tática S.T.A.R.S descobre sobre os experimento da Umbrella Corporation com o T-virus, que faz os mortos retornarem à vida. A série rendeu mais de dez jogos, para diferentes plataformas, quatro filmes (todos pela Screen Gems), sete livros (da editora Pocket Books) e, em 2011, chegou ao Brasil uma história em quadrinhos pela editora Wildstorm. Atualmente, são as HQs e a TV os maiores propagadores da contaminação zumbi, destruindo a humanidade a cada novo produto lançado.
THE WALKING DEAD
Um dos maiores ataques retratados nos quadrinhos foi a série The Walking Dead, ou Os Mortos Vivos, na versão em português lançada pela editora HQ Maniacs. As revistas começaram a ser publicadas em 2003, uma edição por mês. A HQ fez tanto sucesso que, em 2010, ganhou o prêmio Eisner, considerado o Oscar das graphic novels. A história se passa em um mundo devastado pelo apocalipse zumbi. O personagem central é Rick Grimes, um policial de Kentucky que estava em coma durante os ataques e que, ao acordar, encontra em seu caminho mais mortos-vivos do que humanos. Grimes resolve ir em busca de sua esposa e filho, estando convicto de que eles estão bem em meio aquele caos, e no caminho encontra os mais diferentes tipos de sobreviventes, cada um com sua técnica pra se manter vivo.
O impacto dos quadrinhos foi tão grande que uma série de TV de mesmo nome foi produzida pelo canal americano AMC (American Movie Classics), e no Brasil passa no canal pago FOX. The Walking Dead estreou na televisão em 2010, com seis episódios na primeira temporada. O sucesso foi imediato, garantindo uma segunda temporada com 13 episódios, que começaram a ser lançados em outubro deste ano.
Mas zumbis não aparecem na TV somente para comer carne humana e infectar vítimas. True Blood, uma das séries de maior sucesso do canal americano HBO, chegou ao final de sua quarta temporada, na qual os mortos vivos representaram um importante papel. O conceito que achamos aqui é semelhante aos filmes dos anos 1930 e 1940. Na série, os vampiros, já mortos, começam a ser controlados por um grupo de bruxos que fazem com que os “filhos da noite” cumpram suas vontades. O programa, que conta ainda com lobisomens, fadas, e outras criaturas sobrenaturais, volta a ser exibido em junho de 2012.
Mas o êxito de Kirkman como roteirista de quadrinhos não parou com The Walking Dead. Em parceria com a Marvel, ele lançou a série Marvel Zombies no final de 2005. Na história, alguns dos maiores heróis da editora acabam sendo contaminados por um vírus zumbi e, em vez de proteger a humanidade, eles começam a comê-la. Cabe aos bons mocinhos que não foram contaminados lutar contra seus antigos amigos, e salvar o que restou do mundo. Os quadrinhos receberam cinco continuações e várias edições especiais. Sendo que em março de 2011 foi lançada a Marvel Zombies Supreme, de Frank Marraffino (da minissérie Haunted Tank). Marvel Zombies Supreme tem base semelhante à original, mostrando o que acontece quando você mistura zumbis e os super-heróis do “Esquadrão Supremo”, grupo de heróis da Marvel semelhantes à Liga da Justiça, da DC Comics.
E SE ACONTECER?
Você pode não acreditar nos mortos-vivos, mas o Governo dos Estados Unidos acredita. Em março deste ano o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano lançou um guia e um kit de sobrevivência em caso de invasão zumbi. Posteriormente o órgão afirmou que o manual não passava de uma brincadeira. Porém, já estamos às portas de 2012, e para aqueles que acreditam no fim do mundo, o a do CDC é válido: “Você pode rir agora, mas, quando acontecer, você ficará feliz de ter lido isso. Talvez você aprenda uma coisa ou duas sobre como se preparar para uma emergência real”.